Segunda-feira, 10 de Junho de 2013
"A Frelimo de hoje dá cobertura a coisas que combateu"

 

“A Frelimo de hoje dá cobertura a coisas que combateu”

 

Mia Couto

 

 

 

Mia Couto diz que alguns dirigentes

da Frelimo, à primeira  oportunidade para se revelar aquilo que é verdadeiro, que é uma certa tentação no poder, não souberam distinguir aquilo que é coisa pública daquilo que são coisas privadas. 

 

Porquê Mia?

-A história é simples, a mesma tem a ver com a minha infância. É uma história  de que eu não me lembro. Provavelmente é uma história recriada. O que aconteceu é que eu gostava de gatos e quando tinha 2 ou 3 anos, a certa altura, acreditava que ia ser chamado Mia. Os meus pais acharam graça na altura e de repente aquele nome ficou.

Eu sei que é filho de poeta, o senhor Fernando Couto, uma pessoa extremamente simpática e que conhece tudo que é livro. Mia é espécie de filho de peixe que sabe nadar...

-Sim, o meu pai trouxe para nós esta cultura de livro, de facto ele não é poeta, mas ao lado da minha mãe que é contadora de histórias, trazia aquilo que era este mundo, reinventava muito, provavelmente mais que o meu pai.

Li numa entrevista sua, creio que foi num jornal brasileiro, em que dizia que entrou no jornalismo como infiltrado da Frelimo...

De facto, foi antes da independência, eu recebi instruções. Como Jeremias sabe, naquela altura os jornais eram dominados por interesses coloniais e havia presença moçambicana ínfima dentro da media. Então, recebi instrução de abandonar os estudos (eu estudava medicina) para me infiltrar num órgão de informação, na circunstância o jornal “A Tribuna”, em Março de 1974. 

Mesmo muito envolvido com a causa política, depois encontrou uma forma de escrever, digamos diferente, numa altura em que toda a gente fazia exaltação de um país nascente. Enveredou por uma poesia lírica, iniciando-se com um livro de poesia, “Raiz do Orvalho”. Como é que foi este processo de tomada de consciência?

Na altura, apercebi-me que havia um lado político que usurpava tudo o que um ser tinha, havia uma linguagem que era absolutamente osmónica e era terrível, porque nós não podiamos dizer “eu amo”, “apaixonei-me por alguém ou qualquer coisa do género”. O amor era uma coisa que não era bem necessária, o que era mentira, porque a história dos nossos heróis é pouco humanizada, falta esse lado das paixões, dos amores que tiveram. É preciso que a gente revisite todos esses nomes da nossa história e os traga para um lado mais próximo. Eles são iguais a nós.

UM PROJECTO IMPOSSÍVEL

Ainda vive a mesma militância política depois da independência?

É uma militância que é muito pessoal, é política, obviamente, mas não é partidária. Eu faço a defesa dos mesmos princípios, evidentemente reajustados. Acredito que aprendi; todos os dias eu mudo; não sou do grupo dos ressentidos. Fiz parte deles. Já não faço e sou grato a tudo que me proporcionaram.

Porquê é que fez a ruptura com esta militância?

Começou mesmo no período em que era director do jornal, porque tudo começou a tornar-se visível, havia uma distância entre aquilo que era o discurso e a prática. Aquilo que eu percebia, para dizer as coisas que eu tinha que dizer. Eu  podia ter mentido em nome de  uma causa, mas eu tinha outra  causa para não mentir.

Ficou desencantado de alguma maneira com o rumo que tomou?

Desencantamento seria uma espécie de ressentimento. Claro que não fiquei feliz com o facto de que nós não fomos capazes de ser fiéis em relação a princípios de promoção da ordem moral, mas não sou um desencantado. Entendo que historicamente era impossível aquele tipo de projecto.

Num  dos seus escritos, dizia que a Frelimo passou a ter um discurso falseado, mascarado, com objectivos ainda socialistas, quando eles todos se tinham convertido em empresários de sucesso... tem a ver com isso?

Essa é uma das razões. Eu não digo a Frelimo toda, mas alguns dos grandes nomes que dão a cara naquilo que são os projectos da Frelimo. São nomes que creio que estiveram associados ao projecto socialista, mas por empréstimo, não por convicção profunda. Havia ali uma condição histórica que empurrou todo este grupo de gente para assumir um discurso que no fundo não era sua convicção mais íntima. À primeira oportunidade para se revelar aquilo que é verdadeiro, que é uma certa tentação no poder, não souberam distinguir aquilo que é coisa pública daquilo que são coisas privadas. Isso veio ao de cima.

Não se revê na actual Frelimo, portanto?

Não, não me revejo.

Porquê?

Porque acho que a Frelimo de hoje dá cobertura a coisas que me parecem que ontem sempre combateu.

Quando nós lemos Mia Couto sentimos, duas dimensões na língua: a dimensão do rigor, da gramática, do linguisticamente correcto, e a dimensão funcional…

 Eu acho que todos os dias há questões riquíssimas de como é que o português é realizado. O português é uma língua nossa e não temos que ter complexo nenhum quanto a isso.

Remete-nos inevitavelmente a outra questão, a da identidade. Este é um tema recorrente nas suas obras. Porquê?

Porque a identidade é uma espécie de bandeira, não só em Moçambique, mas em todo o mundo. As pessoas são empurradas ao termo identidade, ela surge como se fosse algo que se realiza no singular, como se tivéssemos identidade única, separada.

 

Morte como metáfora do renascimento

Na temática das suas obras, vislumbra-se o desencantamento, a morte, o pessimismo. Porquê?

Eu não concordo que seja pessimismo. Acho que aqui há uma espécie de passagem para renascer mais tarde. Nós temos essa experiência de vida na carne. A morte não acontece como um desaparecimento definitivo na cultura africana.

É uma espécie de metáfora?

É uma metáfora de renascimento, de ressurreição.

Terá a ver com alguma das suas referências literárias?

Há aí uma coisa diferente que tem a ver com o peso da religião católica na América Latina. A religião católica marca o lugar da morte, o lugar da morte está arrumado. Eu acho que as culturas moçambiçanas têm uma outra percepção em relacção à morte: os mortos jamais morrem definitivamente.

Como é que toda esta cosmogonia, este modo de entender estes vários mundos que compõem o universo que já existe, convivem harmoniosamente entre eles?

Bom, basta olhar para a quilo que é a vida quotidiana na rua, no campo. Acho que é uma coisa profundamente moderna, a capacidade de harmonizar diferentes percepções, uma coisa que deveríamos ter orgulho dela.

Também nas suas obras notam-se algumas influências. Estão lá Guimarães Rosa, Luandino Vieira. São estas as suas referências literárias?

Descobri o João Guimarães Rosa depois. Primeiro foi Luandino Vieira. Ele, sim, é que me conduziu ao Gimarães Rosa. Quando eu fazia jornalismo, percebia que a linguagem com que nós retratavamos o quotidiano, com que púnhamos as pessoas a falar, não casava com aquilo que era a verdade da nossa língua portuguesa.

O facto de o universo cultural africano ser dominado pela oralidade terá de alguma maneira influenciado a sua forma de escrever?

Acho que isso é fundamental, é impossivel um escritor ficar indiferente em relação a esses domínios da oralidade. A oralidade muitas vezes é vista como uma deficiência, a oralidade é a não escrita, a oralidade é uma outra lógica, outra sensibilidade. É uma outra forma de ver o mundo que é profundamente rica, depois tem o lado poético, a capacidade de contar, há essa capacidade de contar histórias e que é profundamente enriquecedora para a escrita em Moçambique. Acho que é impossível alguém fechar as portas a este mundo.

E não é única?

Claro que não. São múltiplas as coisas que eu sou. Uma parte minha vem da Europa, outra de África.

Uma espécie de identidade híbrida?

Sim, mas eu acho que todos somos assim. 

O facto de Mia ser branco não tem de alguma maneira influenciado na forma recorrente como escreve sobre o tema identidade?

Provavelmente, sim porque eu tive que resolver isso dentro de mim, pois tive que me confrontar com esta ideia, muito limitadora, do que é ser moçambicano, que ainda hoje existe. A ideia de que para se ser africano tem que se ter esses tipos de passaporte.

O facto de Mia Couto ser branco ajudou ou o prejudicou?

A nossa sociedade tem preconceitos raciais profundos. Acho que Moçambique é um país que levou mais longe essa identidade acima da raça, nós temos problemas raciais que às vezes jogam a favor de uma elite branca, mas há casos em que sou prejudicado por ser branco.

Nomeadamente...

- Lembro-me que havia um concurso em que me foi dito que não podiam dar o prémio a um branco.

 

ELITES AFRICANAS

Ungulani Ba Ka khosa diz que as nossas elites viraram as costas às suas responsabilidades. Partilha desta ideia?

Sim, no geral sim, dizer que toda a elite tem a mesma postura, isso é arriscado. Mas, de facto, é preciso entender que as elites em África tiveram papéis fundamentais no sentido positivo e negativo. Toda a história de África foi reescrita no sentido simplificado de anular aquilo que vinha dentro da África e de repente África passou a ser vista como objecto de auto-vitimização, como se toda a acção fosse a partir de fora. As elites estiveram presentes no desenho daquilo que foi a escravatura, complexidade com o colonialismo e com aquilo que é a espécie global.

Há quem diga que temos uma elite com um comportamento predador ...

No geral, sim. Estou absolutamente convicto de que esta elite foi a de substituição daquilo que foram as elites anteriores, mas dentro das elites existem focos de defesa de interesse nacional.

Escreveu uma vez que o maior foco de atraso em Moçambique não se focaliza na economia em si, mas na incapacidade de gerarmos um pensamento produtivo, crítico, ousado e inovador. continua a pensar asssim?

Absolutamente. Vejo com tristeza que esta campanha toda contra a pobreza não nos ajuda muito, parece que somos adeptos do orgulho, auto-estima, simplesmente porque temos um discurso cheio de adjectivos.

Houve agora o lançamento da marca Moçambique, não sou contra, se eu fosse ministro do Turismo provavelmente faria a mesma coisa. Vivemos uma imagem falseada. Eu acho que é mais um slogan que outra coisa. A revolução verde, por exemplo, ainda não sei o que é.

Quando falamos da produção de conhecimento, inevitalmente entram as universidades. Como é que Mia Couto olha para estes centros de produção do saber?

Eu olho com alguma preocupação, primeiro porque elas são o armazém daquilo que foi passando de mão em mão, que carece desse investimento de qualidade. O problema da universidade resolve-se a outros níveis. Por exemplo, a questão dos hospitais: o nível de preocupação da nossa elite com a qualidade é menor, porque quando alguém da elite está doente, ele sabe que não vai a um hospital nacional, vai para fora do país. Este é o nível de hipocrisia que existe.

Li um texto seu em que escrevia que a Universidade devia ser um centro de debate, uma fábrica de cidadania activa. Por que não está a sê-lo?

Porque me parece que há uma preparação prévia que faz com que aquele que deve ser  um estudante, acabe por se converter apenas num aluno. Sinto que no período da juventude, tido como o da escola, não há um encorajamento de que o jovem deve ser rebelde. Quando digo rebelde, não é no sentido de partir a louça da cozinha, mas no sentido de trazer inquietações. Este sentimento de que este mundo não serve. A juventude não pode vestir este  tipo de valores de uma forma acomodada.

CULTURA DE CORRUPÇÃO 

Ungulani dizia também que as elites estão um pouco mar­ginalizadas nesta governação de Guebuza. Qual é a sua percepção?

Não vejo dessa maneira, há mudanças naquilo que são as distribuições, o centro do poder, mas isso é o que acontece em todo o mundo, não sei se o foco do distrito implica essa mudança das elites, contudo, não creio que seja por ai.  

Este governo prometeu muito, estamos no fim do mandato. Acha que essas promessas se concretizaram?

Em geral, acho que poucas coisas se realizaram, aprendi que as grandes proclamações não funcionam. Acho que há uma mistura de coisas, por exemplo, o combate à corrupção pare­ce-me que não pode ser a medida daquilo que é a expectativa moçambicana. No geral, mantém-se esta ideia de que os pode­res estão acima da lei, da justica. Hoje, já temos uma cultura de roubo e corrupcão generalizada.

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Terça-feira, 31 de Março de 2009
LEITURAS .1.

 " Quando se apercebe das partes imperfeitas do seu ser, algo de mágico ocorre. Com o que é negativo, começa a aperceber-se do que é positivo, os aspectos maravilhosos de si próprio que até este momento não tinha valorizado, ou mesmo constatado. Perceberá que, embora muitas vezes aja de modo egoísta, em algumas ocasiões sabe ser incrivelmente generoso. Algumas vezes, pode sentir-se inseguro ou assustado, mas na maior parte das vezes é corajoso. Embora possa sentir-se tenso, consegue também descontrair-se.

 

 Abrir-se para a totalidade do seu ser é como dizer para si mesmo: “Posso não ser perfeito, mas estou bem tal como sou.” quando as características negativas emergirem, comece por encará-las como parte de um quadro mais amplo. Em vez de se julgar a avaliar simplesmente por ser humano, vela se consegue aperceber-se com gentileza e capacidade de aceitação. É provável que seja uma “catástrofe completa”, mas tenha calma. Todos nós o somos.

 

Obstáculos e problemas fazem parte da vida. A verdadeira felicidade não surge quando nos livramos de todos os problemas, mas quando mudamos a nossa relação com eles, quando os vemos como uma fonte potencial de despertar, de oportunidades de praticar a paciência e de aprender. Provavelmente, o princípio mais básico da vida espiritual será o de que os nossos problemas são o melhor espaço para a prática do coração aberto.

 

É claro que alguns dos problemas têm de ser solucionados. A maior parte deles, no entanto, são criados por nós mesmos, pela nossa luta para tornar a vida diferente do que é na realidade. A paz interior pode ser alcançada pelo entendimento e pela aceitação das inevitáveis contradições da vida - a dor e o prazer, o sucesso e o fracasso, a alegria e a tristeza, nascimentos e mortes. Os problemas podem ensinar-nos a sermos graciosos, humildes e pacientes.

 

Segundo a tradição budista, as dificuldades são tão importantes para o crescimento e para a paz, que existe uma prece tibetana que efectivamente intercede por elas. Ela diz: “Faz que me sejam dadas dificuldades apropriadas e sofrimentos na minha jornada para que o meu coração possa ser verdadeiramente despertado e que a minha prática de libertação da compaixão universal possa ser, de facto, alcançada.” Os budistas sentem que quando a vida é muito fácil, surgem poucas oportunidades para o verdadeiro crescimento.

 

Não exageraria ao ponto de recomendar que procure problemas. Sugiro, no entanto, que fuja menos dos problemas e se esquive menos - e os aceite mais como parte inevitável, natural e até importante da vida. Descobrirá rapidamente que a vida pode ter muito mais de dança do que de guerra. Esta filosofia de aceitação é a raiz da atitude de se deixar levar pelo fluir das coisas. "

 

 

Richard Carlson 

(Manuel, 31/03/2009)

 

 

 

 

 

 

 

 



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Sexta-feira, 27 de Março de 2009
PENSAMENTOS XII

Outra excelente fonte de gratidão e paz interior é gastar um minuto, todos os dias, pensando em alguém a quem devemos amar.

 

Se quiser que a sua vida seja pacífica e boa, será útil tentar empenhar-se em fazer coisas boas e pacíficas. Uma das minhas maneiras favoritas de desenvolver estas qualidades é praticar os meus próprios rituais de ajuda. Estes pequenos actos de benevolência são oportunidades para nos lembrarmos de como é bom sentirmo-nos gentis e prestáveis.

 

Tudo o que Deus criou é potencialmente sagrado. A nossa tarerfa como seres humanos é encontrar o sagrado em situações que parecem ser pouco sagradas. Sugere que quando aprendemos a fazer isso, aprendemos a nutrir as nossas almas.

 

 

É fácil ver a beleza de Deus num pôr do sol magnífico, numa montanha cheia de neve, no sorriso de uma criança saudável ou nas ondas do mar a bater na areia de uma praia. Mas será que sabemos ver o sagrado em circunstâncias aparentemente feias – lições difíceis da vida, tragédias familiares, na luta pela vida?

 

 

Quando as nossas vidas se enchem do desejo de ver o sagrado nas coisas de todos os dias, algo de mágico acontece. Um sentimento de paz invade-nos. Começamos a ver os aspectos enriquecedores da vida quotidiana, que antes estavam escondidos. Quando nos lembramos de que tudo traz as impressões digitais de Deus, isso é o suficiente para tornar tudo especial. Se nos recordamos deste facto espirítual quando estamos a lidar com uma pessoa difícil ou a lutar para pagar as nossas contas, a nossa perspectiva amplia-se. É sempre útil lembrar que Deus também criou a pessoa com quem está a lidar ou que, embora esteja a lutar para pagar as suas contas, é efectivamente abençoado por ter o que tem.

 

 

Em algum lugar, no fundo da sua mente, tente sempre lembrar-se de que tudo tem as impressões de Deus. O facto de não conseguirmos ver a beleza em algo não quer dizer que ela não exista. O que talvez esteja a acontecer é não estarmos a olhar com muito cuidado ou com a perspectiva ampla com que deveríamos olhar.

 

Quando julgamos ou criticamos outra pessoa, não são os seus defeitos que denunciamos, mas os nossos: a nossa necessidade de sermos críticos.

 

 

Manuel, 27/03/2009



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Domingo, 22 de Março de 2009
AUTO-ESTIMA V

Que é que o sexo tem a ver com a auto-estima? Tem de facto muito, a ver. Efectivamente, como é natural, a confiança que temos em nós mesmos é condicionada pelos sentimentos: por aqueles que experimentamos e por aqueles que os outros têm em relação a nós. Portanto, a segurança de se ser amado, o prazer de amar são tudo componentes da seiva vital que alimenta a auto-estima. Assim como o viver sem inibições e sem medos, mas sim de uma maneira gratificante, a esfera da sexualidade.

 

 

Vivemos doravante num grande supermercado global. E, entre as muitas desgraças induzidas por esta sociedade cada vez mais descaradamente consumista, há também distúrbios compulsivos. É verdade que o impulso para comprar e consumir é apenas uma causa concomitante, mas as perturbações ligadas à dependência ´são cada vez mais numerosas e espalhadas. Dependência da comida, dos jogos de azar, da droga, do álcool e mesmo do shopping…

 

Quais são as reacções que derivam da perda da auto-estima? A melancolia e a depressão. Todavia, com frequência, o passado é mais difícil de enfrentar, na medida em que esconde segredos angustiantes.

 

A nossa criatividade não é condicionada pelos factos, está na nossa mente: ou melhor, na mente de quem pensa que há sempre algo a inventar, a admirar, a descobrir na vida. Em suma, quem é criativo não é negativo, não é conformista, não é apático, não é medroso, procura sempre uma solução, começando as frases com uma frase simples e de bom auspício: e se…? Uma atitude positiva atrai acontecimentos positivos.

 

“Antes de nascer, diz (Jacob Gellacqua), já existimos porque fazemos todos parte da mesma rocha. Depois, o tempo passa, a rocha esboroa-se; passamos de rocha a pedra, e de pedra a seixo. Mais tarde, o seixo esfarela-se, tornando-se areia, e então começa a viagem. O vento leva-nos para o alto, para o céu; faz-nos girar até ao infinito; pouco a pouco a areia transforma-se em pó. E quando se é pó, ninguém nos pode ver, ninguém nos pode agarrar; somos livres, podemos amar como quisermos. E mesmo sendo de pedra, somos leves como a luz”.

 

 

 

Manuel, 22/03/2009

 



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Sábado, 21 de Março de 2009
PENSAMENTOS XI .Culpados, Inocentes e Humildade.

Para muitas pessoas, um dos dados mais frustantes da vida é não ser capaz de entender o comportamento dos outros. Temos o hábito de os ver como “culpados” e não como “inocentes”. Temos tendência para perceber o comportamento aparentemente irracional das pessoas – os seus comentários, as suas acções, as suas vingançazinhas, os seus egoísmos – e nos sentirmos, por causa deles, frustrados. Se dermos um grande relevo ao comportamento dos outros, teremos a impressão de que as pessoas nos fazem sentir muito mal.

 

É verdade que as outras pessoas agem de maneira estranha, mas se somos nós quem se aborrece com isso, então somos nós que precisamos de mudar. Não estou a dizer aceitar, ignorar ou advogar a violência ou qualquer acto condenável. Digo, apenas, que devemos aprender a reagir melhor às acções das pessoas.

 

Perceber a inocência é um poderoso instrumento de transformação. Significa que, quando alguém agir de uma forma que não aprovamos, a melhor estratégia é distanciarmo-nos do seu comportamento; procurarmos ver para “além”, de modo a podermos perceber a inocência que está na base desse comportamento. Com muita frequência, esta subtil deslocação do nosso pensamento tem a vantagem de nos levar à compaixão.

 

Da próxima vez (e espero que sempre, daqui para a frente), quando alguém agir de maneira estranha, procure a inocência subjacente a tal comportamento. Se tiver compaixão, não será difícil compreender essa pessoa. Quando conseguir perceber a inocência, as coisas que tinham o poder de o frustar deixam de o fazer. E quando isso acontecer será muito mais fácil sentir-se em permanente sintonia com a beleza da vida.

 

A humildade e a paz interior caminham de mãos dadas. Quanto menos se sentir compelido a provar alguma coisa aos outros, mais fácil será sentir paz.

 

Exibir provas dos seus actos é uma armadilha perigosa. Exige uma energia considerável apontar continuamente as realizações pessoais, tentando convencer os outros do seu valor como ser humano. Falar das realizações próprias faz diluir normalmente os sentimentos positivos que podem emanar de uma realização ou de algo de que se orgulhe. Para piorar as coisas, quanto mais se exibe, mais os outros o evitam, mais falam nas suas costas sobre a sua compulsão de se exibir, e talvez possam ficar ressentidos.

 

Ironicamente, no entanto, quanto menos se interessar com a aprovação, mais elogios atrairá. As pessoas semtem-se atraídas por aqueles que evidenciam segurança interior, que não precisam de mostrar que são bons, ou que  se mostram permanentemente certos. Quase toda a gente gosta de pessoas que não precisam de se exibir, que gostam de partilhar sinceramente, do fundo do coração, e não se mostram motivadas pelo ego.

 

A maneira de desenvolver a genuína humildade é através da prática. A sua primeira boa consequência pode ser sentida imediatamente por um desenvolvimento de sentimentos calmos e tranquilos. Da próxima vez que tiver oportunidade de se vangloriar, resista à tentação e colherá resultados mais positivos e melhor atenção por ter praticado a humildade.

 

 

Manuel, 21/03/2009



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Terça-feira, 17 de Março de 2009
PENSAMENTOS X .Perceber e Ouvir.

Tentar primeiro “perceber”implica, essencialmente, que deve mostrar-se mais interessado e compreensivo em relação aos outros ao invés de esperar que os outros o entendam. Significa assimilar plenamente a ideia de que, se quer qualidade, estabelecendo a comunicação que é tão vital para si e para os outros, entender o próximo deve ser a regra número um. quando se apercebe de onde vêm as pessoas, o que tentam dizer, o que é importante para elas, e assim por diante, ser entendido torna-se uma consequência natural; acontece simplesmente, sem qualquer esforço. Quando pretende reverter este processo, no entanto (que é o que a maioria de nós faz a maior parte do tempo), está a pôr o carro à frente dos bois. Quando tenta ser entendido antes de entender, o esforço exercido será sentido por si e pela pessoa ou pessoas que quer atingir. A comunicação interrompe-se, e terá em mãos uma batalha entre dois egos.

 

Tentar entender primeiro não tem muita relação com quem está certo ou errado; é, na verdade, uma filosofia de efectiva comunicação. Quando usar esta estratégia, vai reparar que as pessoas com quem comunica se sentem ouvidas, apreciadas e entendidas. E isso traduzir-se-á em relações melhores e mais amáveis.

 

Cresci a acreditar que era bom ouvinte. E embora me tenha tornado um ouvinte melhor nos últimos dezoito anos, devo admitir que sou, ainda e apenas, um ouvinte adequado.

 

Ouvir efectivamente é mais do que evitar o péssimo hábito de interromper os outros enquanto falam, ou terminar as frases por eles. É sentir-se feliz ao ouvir plenamente o pensamento de outrem, em vez de aguardar, impaciente, a oportunidade de responder.

 

De certa maneira, a forma como falhamos como ouvintes revela muito sobre como vivemos, frequentemente tratamos a comunicação como se estivéssemos numa corrida. É como se o nosso objectivo fosse não permitir qualquer intervalo entre a conclusão da frase da pessoa com quem estamos a falar e o início da nossa frase.

 

Tornar-me melhor ouvinte não só faz de mim uma pessoa mais paciente, como também melhora a qualidade das minhas  relações. Todos gostamos de conversar com alguém que nos ouve.

 

 

Manuel, 16/03/2009



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Sábado, 14 de Março de 2009
PENSAMENTOS IX - "Gratidão"

 

Tento lembrar-me de começar o meu dia a pensar em alguém a quem deva agradecer. Para mim, gratidão e paz interior caminham de mãos dadas. Quanto mais genuinamente grato me sinto pelo dom da vida, mais pacífico me sinto. A gratidão precisa, portanto, de algum exercício. 

Se for ligeiramente parecido comigo, provavelmente tem muitas pessoas na sua vida a quem deve gratidão: amigos, membros da família, pessoas do seu passado, professores, conselheiros, colegas de trabalho, alguém que o ajudou, e muitos outros. Pode agradecer a um Poder Superior pelo dom da própria vida, ou pela maravilha da natureza. 

 Aprendi à muito tempo que é muito fácil permitir que a minha mente resvale para várias formas de negativismo. Quando isso acontece, a primeira coisa que perco é o sentido da gratidão. Começo a pensar que as pessoas da minha vida não são muito importantes, e o amor que sinto começa a ser substituído por ressentimento e frustação. O que esse exercício me faz lembrar é que devo manter o interesse da minha vida nas coisas boas. Invariàvelmente, quando penso numa pessoa a quem devo gratidão, a imagem de outra surge, e outra e outra. E penso imediatamente noutras coisas que devo agradecer – a minha saúde, os meus filhos, a casa, a carreira, a minha liberdade, e assim por diante.

 Se acordar todas as manhãs com gratidão no meu pensamento, será difícil, quase impossível, não ser invadido por um sentimento de paz.

 

 Manuel, 14/03/2009



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Sexta-feira, 13 de Março de 2009
PEGADAS NA AREIA

Uma noite eu tive um sonho ...
 

Sonhei que eu estava andando na praia com o Senhor, e através do céu, passavam cenas da minha vida. Para cada cena que se passava, percebi que eram deixados dois pares de pegadas na areia: um era o meu e o outro era do Senhor.

Quando a última cena da minha vida passou diante de nós, olhei para trás, para as pegadas na areia, e notei que muitas vezes, no caminho da minha vida, havia apenas um par de pegadas na areia. Notei também que isso aconteceu nos momentos mais difíceis e angustiosos do meu viver. Isso aborreceu-me deveras e perguntei então ao Senhor:

- Senhor, tu me disseste que, uma vez que resolvi te seguir, tu andarias sempre comigo, em todo caminho. Contudo, notei que durante as maiores atribulações do meu viver, havia apenas um par de pegadas na areia. Não compreendendo por que nas horas em que eu mais necessitava de ti, tu me deixaste sozinho.

O Senhor me respondeu:

- Meu querido filho. Jamais eu te deixaria nas horas da prova e do sofrimento. Quando viste, na areia, apenas um par de pegadas, eram as minhas. Foi exatamente aí que eu te carreguei nos braços

 

 

Manuel, Jun.1991



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Quinta-feira, 12 de Março de 2009
PENSAMENTOS VIII

 

 

Muitos de nós temos o hábito de cultivar pequenos ressentimentos que podem ser consequências de alguma discussão ou mal-entendido, do tipo de educação que tivemos ou de qualquer outro acontecimento penoso.

 

Cabeças duras, ficamos à espera de que a outra pessoa envolvida nos procure – e acreditamos piamente que essa é a única maneira de perdoarmos ou reatarmos um laço familiar ou de amizade.

 

 

Passamos a pensar que os nossos pontos de vista são mais importantes do que a nossa felicidade. Não são. Se quiser ser uma pessoa mais pacífica, tem de entender que ter razão quase nunca foi tão importante como procurar a felicidade. E a felicidade está em deixar as coisas fluírem, seguirem o seu caminho. Deixe as outras pessoas terem razão. Experimentará a paz que advém de deixar as coisas acontecerem, a alegria de deixar os outros serem correctos. Acabará por constactar que, ao deixar as coisas acontecerem e sendo os outros donos da razão, tornam-se menos defensivos e mais amorosos em relação a si. Terá a satisfação interior de saber que teve a sua parte na construção de um mundo mais amoroso, e de certeza ficará mais em paz consigo mesmo.

 

 

Um dos erros que cometemos normalmente é sentirmos pena de nós mesmos, ou dos outros, pensando que a vida deveria ser justa, ou que algum dia o será. Não é, e nunca o será. Quando cometemos tal erro, a nossa tendência é gastar boa parte do nosso tempo resmungando ou reclamando a respeito do que está errado com a vida. Sentimos comiseração pelos outros, discutimos as injustiças.

 

O facto de a vida não ser justa não quer dizer que não devamos fazer tudo o que está ao nosso alcance para melhorar as nossas vidas e a do mundo como um todo.  Pelo contrário, indica presisamente que é o que devemos fazer. Quando não reconhecemos ou admitimos que a vida não é justa, tendemos a sentir piedade dos outros e de nós mesmos. A piedade é um sentimento consolador que não melhora nada a ninguém, e só serve para que as pessoas se sintam um pouco piores do que estão. Quando reconhecemos que a vida não é justa, no entanto, sentimos compaixão pelos outros e por nós mesmos. E compaixão é um sentimento que provoca simpatia em todos os que o experimentam. Da próxima vez que der consigo a refletir sobre as injustiças do mundo, tente lembrar-se deste facto básico. Pode surpreender-se ao perceber que é fácil livrar-se da autopiedade e partir para a acção efectiva.

 

 

Manuel, 12/03/2009



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Segunda-feira, 9 de Março de 2009
AUTO-ESTIMA IV

Para ter estima e confiança em si próprio é preciso conhecer-se, mas não se trata de uma operação apenas racional. As pessoas que se avaliam de modo ligeiramnte melhorativo, que, portanto, “corrigem” positivamente a sua imagem, vivem num estado de bem-estar e exprimem mais criatividade.

 

A auto-estima depende também da discrepância entre o que pensamos ser e o que desejaríamos ser, ou que deveríamos ser, em função de algumas regras morais ou sociais. A diferença pode também colocar-se entre o que somos e aquilo que os outros quereriam que fôssemos.

 

Por isso é importante remontar às origens, ou seja, compreender como nasce e se desenvolve a auto-estima, verificar de que modo e quando se forma a opinião que temos de nós prprios. É de facto precisamente nos primeiros anos da nossa vida, os da infância, que plasmamos as primeiras convicções sobre nós próprios, e isto em interacção com os adultos que nos rodeiam: nessa caminhada, as figuras mais importantes são normalmente os pais.

 

Reconhecer e processar a raiva

 

Os nossos condicionamentos sociais fazem com que a raiva seja um dos sentimentos mais difíceis de admitir: ora, é importante exprimi-la quando ela existe e, ao mesmo tempo, saber usar a magia do perdão, dissolver o passado no presente e libertar assim o futuro, deixando-o caminhar.

 

Quem não sabe perdoar baixa o seu nível de auto-estima, prejudicando-se a si próprio nas suas potencialidades vitais. Com efeito, como é possível amar, continuando a alimentar pensamentos venenosos? Perdoar, recordemo-lo, não significa esquecer, mas dissolver os vínculos que nos ligam ao outro no ódio. Se o nó da raiva é recente e não muito apertado ou emaranhado, podem ser suficientes soluções “primitivas”: gritar, chorar, dar murros numa almofada… mas se a embrulhada é mais intrincada e de origem antiga, será preciso escolher o caminho da psicoterapia.

 

Aprender a dizer não

 

Se tivéssemos de dizer instintivamente o que significa o “não”, diríamos talvez que é o símbolo da recusa. Existem, contudo, vários tipos de “não”: o “não submisso”, aquele que é pronunciado por quem está muito preocupado com o juízo dos outros (e usa talvez o “não retardado”, esperando que entretanto as coisas se arranjem, tornando supérfluo tomar posição). Depois há o “não agressivo”, quando não nos damos conta de quanto possa ferir uma recusa brusca. Há, por fim, um “não positivo””, que deixa espaço ao direito do outro de dizer não… Neste caso, trata-se de uma atitude “criativa”, precisamente porque não tira ao outro o direito de recusa, libertando assim em si a força dos seus sesejos.

 

Imaginar, decidir e agir

 

Há uma frase de Goethe que acho verdadeira e muito bela: “Seja o que fôr que possais imaginar poder fazer, fazei-lo.” é um convite dirigido sobretudo aos mais tímidos, para os quais a audácia é quase uma magia. Ora, a consciência da própria criatividade permite tomar consciência da nossa vida; e conseguir ter um maior controlo sobre a própria existência faz elevar o nível da auto-estima.

 

Um outro obstáculo no caminho de quem não consegue transformar os sonhos em realidade é o sentido da oportunidade. É bonito acariciar um projecto, mas decidir pôr-se a caminho e concretizá-lo é uma história completamente diferente. Muitos acham penoso tomar decisões porque não têm confiança no seu juízo. Neste caso, torna-se necessária  pôr em prática a Intenção, a Decisão e a Acção.

 

Exprimir os seus desejos nas emoções de base 

 

Para a auto-estima é também essencial ser capaz  de exprimir os seus desejos nas emoções “de base”: por exemplo, na esfera erótica. Quem não consegue fazê-lo, perde a confiança em si.

 

A nossa felicidade sentimental depende também dos nossos pais. Porque são eles que nos transmitem, talvez por palavras, mas muito simplesmente vivendo todos os dias a sua vida de casal, um primeiro modelo, que nos condicionará, porque procuraremos combatê-lo ou repeti-lo. Ou então – se as coisas correm bem – usá-lo-emos como “base”, com os necessários ajustamentos, para compreender o que é que na verdade queremos nós do amor. Obviamente, se as mensagens que os pais enviam são negativas, é difícil libertar-se dessa pesadíssima herança.

 

(Willy Pasini)

 

Manuel, 01/03/2009



publicado por Palhota da MalaMala às 02:46
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